quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Hilda, adoro histórias com fundo moral!


A rainha careca

Hilda Hilst


De cabeleira farta
de rígidas ombreiras
de elegante beca
Ula era casta
Porque de passarinha
Era careca.
À noite alisava
O monte lisinho
Co'a lupa procurava
Um tênue fiozinho
Que há tempos avistara.
Ó céus! Exclamava.
Por que me fizeram
Tão farta de cabelos
Tão careca nos meios?
E chorava.
Um dia...
Passou pelo reino
Um biscate peludo
Vendendo venenos.
(Uma gota aguda
Pode ser remédio
Pra uma passarinha
De rainha.)
Convocado ao palácio
Ula fez com que entrasse
No seu quarto.
Não tema, cavalheiro,
Disse-lhe a rainha
Quero apenas pentelhos
Pra minha passarinha.
Ó Senhora! O biscate exclamou.
É pra agora!
E arrancou do próprio peito
Os pêlos
E com saliva de ósculos
Colou-os
Concomitantemente penetrando-lhe os meios.
UI! UI! UI! gemeu Ula
De felicidade
Cabeluda ou não
Rainha ou prostituta
Hei de ficar contigo
A vida toda!
Evidente que aos poucos
Despregou-se o tufo todo.
Mas isso o que importa?
Feliz, mui contentinha
A Rainha Ula já não chora.


Moral da estória:
Se o problema é relevante,
apela pro primeiro passante.


Os versos acima foram extraídos do livro "Bufólicas", Editora Globo - São Paulo, 2002, pág. 15, que conta com ilustrações magníficas de Jaguar.Fonte: Releituras.com

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Um viva a mim mesmo!



Vamos lançar a verdade. Qual é o pesquisador intelectual, principalmente da área de humanas, que não se torna egocêntrico diante de sua produção? Nossa, é de muita grandeza o espaço-tempo que se ocupa na construção de uma pesquisa, por mais que ela seja sobre a-utilização-dos-períodos-compostos-na-obra-de-José-de-Alencar-:-a-complexidade-patriótica-na-estrutura-do-texto. Ainda que eu não tenha feito nenhum trabalho como esse sobre a obra de Alencar, sei que o meu trabalho não é a coisa mais importante do mundo, e também sei que ele não ajudará na cura do câncer, nem na despoluição do rio tietê. No entanto, nesta semana venho trabalhando na adaptação de minha monografia da especialização, em busca de fragmentá-la em um ou dois artigos. Puts, quando eu li todo o meu trabalho em busca de fragmentos que valeriam a pena ser exibidos fiquei tão lisongeado. É tão bom quando você distancia-se do seu próprio trabalho e pode voltar a lê-lo sem que ele faça parte de você. Obviamente que encontrei várias coisinhas que me desagradam, mas percebi uma discussão tão bacana, que me estimulei com os artigos que resultarão. É nesse sentido o egocentrismo que eu apontava. Algo que eu sei que será interessante só para alguns, mas que resume um pouco de minhas reflexões continuadas por cerca de um ano. A verdade é que muito da nossa produção intelectual é muito mais para nós mesmos do que para o outro. Se o outro puder usufrui-la, incrível, mas se ela puder refletir um pouco de nós em um determinado momento, e como estamos marcados naquele espaço, isso já será a chave do negócio. A foto acima é de Cindy Sherman, objeto de estudos do meu trabalho. Continuaremos juntos agora no mestrado. Eu, Cindy, e outros artistas. Tudo para que um ano depois da conclusão eu possa ler a minha dissertação e pensar, nossa, arrasei! Irônico, né?!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A lista

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você já desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você
Oswaldo Montenegro

Podem falar o que for, mas Oswaldo Montenegro é pontual nesta letra. Quem não sofre ao pensar nessa lista? Amei esta música muito tempo antes, e agora amo ainda. Me faz pensar em todos os valores dos relacionamentos que tive, e me faz perceber quanto de minha história e maturidade são resultado deles. Por quanto tempo pensamos que somente iríamos transferir o quarto da Aline, local de nossas mais íntimas reflexões, para qualquer outro apartamento de luxo, fruto de nossa bem sucedida carreira (hahahahahaha). A inocência de pensarmos sobre o futuro... aos 20 o primeiro carro, aos 25 apartamento, e o casamento, e as viagens. Puts, erramos feio. Mas, crescer é isso. É reconhecer na pele o que é ser adulto. Agora somos, já não nos vemos tanto. Mas pelo menos guardo em mim muito dos meus amigos amados. A pena é que, agora, nossos encontros são em ocasiões especiais, e não mais rotineiramente. Uma das coisas chatas de envelhecer...tomar rumos diferentes.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Enfim, de volta das férias...


Sabe, eu acho que não sou capaz... As vezes me sinto assim, completamente incapaz. Incapaz de escrever, de ler, de discutir, de reagir, de correr, de trabalhar. Os dias de total inércia me comovem como os filmes de Bergman. Me acalantam comos os sambas lentos e arredondados. Aliás, a palavra inércia parece sugerir a mim um quarto escuro cheio de filmes e comidas. Eu me lembro que em tempos anteriores eu sofria da terrível depressão de domingo. Logo que acordava, bem tarde e bem de ressaca, sentia o ritmo lento do meu corpo e já logo pensava na indescritível segunda-feira-cheia-de-trabalho-e-aulas-pulando-para-todos-os-lados-da-minha-manhã-tarde-e-noite. Então, minha primeira reação era sempre caminhar lentamente até o shop beef, comprar a maior marmitex com saquinho de alface acompanhando, ir até a locadora e perder algum tempo, o quanto fosse preciso, para achar aquele, sabe aquele, filme, ou aqueles. Então voltava para casa cheio de nada dentro de mim, não querendo pensar sobre o amanhã que logo viria, mas pensando exclusivamente sobre ele. Então comia até doer. Deitava em meu quarto, aproximava-me do computador e colocava os filmes, que de um em um iam tomando conta de meu tempo, até chegar no absoluto final do tempo livre. Quando olhava para o relógio e via que estava próximo da meia noite, e que a segunda estava por segundos tomando conta de mim, me lavava de angústia e tentava dormir atordoado pela idéia do não querer. Depois, no ano seguinte, tomei uma fantástica decisão de trabalhar bem pouco na segunda...quase nada. Resolvi um problema. Mas sempre possegue em mim a preguiça. Aceito-a. Pode entrar. Me tome de vez em quando. Não luto contra, acho besteira viver alucinado. Gosto dos procedimentos que sugerem um pouco a pouco. Não sou capaz de mais do que isso. Parei de escrever por um tempo. Queria voltar, mas tinha preguiça. Até que voltei. Quem sabe não retomo... sem pressão. Só sentindo o prazer de estar aqui. Sabe, a vida me tem sido tão dura ultimamente. Tem me levantado tantos muros endurecidos de concreto. Para que é que vou ficar chocando com a cabeça por eles? O melhor é ir cavando aos poucos, quando a vontade pedir. Sempre que possível tirarei férias. São ótimas para a mente. Mas quando elas acabam, aqui estou eu para marcar... Retomo sim, mas sabendo que outras férias virão, e que as segundas ferias voltarão a ser domingo.
*Foto da obra de Leonilson

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Chico - via Pol - Para Cássia e Dani

Olê, Olá

Chico Buarque

Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar
(...)
Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar
(...)
Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu ás vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir

Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há lugar mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar

domingo, 16 de dezembro de 2007

No vai e vem ou Ou isto ou aquilo

Eu tenho um irmão
que foi meu irmão
que foi meu amigo
e hoje
é meu irmão, meu amigo e meu amor

Eu tenho amigos
que foram amigos
e hoje são irmãos
assim como meu irmão é meu amor

Eu tenho amores
E tenho amores que me têm

Eu tenho amores que foram
e que vêm
Eu tenho amores que vêm
e que não vão

Eu vim desde lá até aqui
E agora vou

Os amores de lá estão em mim
Os amores daqui estão em mim

e, ainda assim, eu tenho medo da solidão.

Sim, a melancolia está em mim!

Quando eu penso em escrever, logo me vem algo ligado ao plano da melancolia. Então, pensei por um momento se isso seria vitimização. Se o culto a melancolia seria apenas fonte de inspiração íntima, ou se a melancolia é mesmo algo que me constitui. Afinal, o que é a melancolia senão uma brecha dentro de nós preenchida por um nada que de tão significativo não sabemos o real sentido. Eu não sou melancólico, eu acho. Mas eu trago a melancolia em mim. Dentro de algum lugar, tenho uma brecha preenchida por uma lava branca e inexplicável e que, volta e meia, emerge e me transborda. Na verdade, acho que todos temos. Mas o exercício de investigá-la, na tentativa de entender sobre ela o que representa em nós, ainda que saibamos nunca ser possível atingir tão complexo nível de auto-conhecimeto, nos faz um pouco tristes e maduros. Permitir-se à melancolia é saber reconhecer que ela existe, nos constitui, e é inevitável. A maturidade é pouco isso. Saber dosar parcelas saudáveis de dor sem que elas possam nos tomar por completo o tempo todo. É a busca por saber medir o quanto cada coisa pode e deve nos render de efeito. Mas a maturidade, ainda assim, não pode nos fazer absortos na racionalidade, e esse será mais um limite a ser administrado. Isso está ligado ao lance de que a maturidade não pode nos embrutecer diante dos fenômenos que nos cercam, pois, afinal, poucas são as verdades universais. O amor, por exemplo, é algo que maturidade alguma poderá suprir por completo. Ela poderá até criar um mecanismo de preenchimento sintético para aquela brecha, que temos, destinada ao amor, mas a artificialidade não suprirá a complexidade orgânica. E a falta da prática amorosa nos fará completamente melancólicos, e, logo, pouco maduros. Tenho amores tão grandiosos em mim. E eles ora me fazem mais melancólico, ora me distraem dela. Os mesmo amores. Mostrando que a melancolia não me constitui, mas existe em mim como os amores que tenho.
Amo o João, amo o Renan, amo minha mãe, amo o Du, amo a Paula, amo a Cássia, amo a Dani, amo a Vi, e amo... tanto nessa vida. E, no entanto, sou melancólico, vezououtra, por cada um deles. Isso não quer dizer que sou triste. Agora, estou só um pouco melancólico. Mas, nem a tristeza nem a melancolia são inerentes a mim.
As obras de todos que citei aqui tem um pouco disso. Leonilson, Bourgeois, Thais, Bandeira. Marca de que não estou sozinho neste mundo.